São amarelos, riscados de azul, com gritos horrorosos de sirenes e estonteantes roncos, esplendorosas cintilantes e psicadélicas luzes de tejadilho, frente e traseira, percorrem constantemente os caminhos dos concelhos pitorescos, dilacerando numa azafama incontida a tranquilidade e paz da pacatez provinciana. São as novas ambulâncias do INEM, vieram para nos socorrer, mas também, sem dúvida, para nos deixar constantemente de coração na mão, pelo acutilante aparato de que nos dão conta nos mais imprevisíveis momentos do nosso quotidiano.
Não vai há muito tempo que ouvir uma sirene significava o anúncio colectivo de uma situação muito grave, o que nos deixava a todos, que moram cá pela província, de pêlos de pé e a conjecturar sobre quem seria o infeliz a quem o infortúnio lhe bateu à porta. E as notícias não tardariam a chegar, embora que geralmente especuladas, mas significavam sempre desgraça, dor, destruição e muitas vezes mesmo morte.
Até há pouco tempo entregues quase exclusivamente a incorporações dos Bombeiros Voluntários locais e polícia, esta missão de socorrer e transportar doentes vítimas de situação aguda e súbita, foi sempre merecedora de grande respeito social, não só pelo aprumo e dedicação das suas tripulações, mas também pela nobre missão que este trabalho envolvia. Nunca se ouviu ninguém criticar a inutilidade de uma sirene, muito menos deste trabalho ou da orientação que o mesmo merecia por parte das chefias e comandos.
Subitamente, e numa nova lógica de assistência pré hospitalar, o Estado acrescenta meios estruturais que rompem com o passado e tornam o nosso ambiente típico e orgulhosamente provinciano, num quase cenário cinematográfica de um Wollywood to entertainment source for movies, também a fazer lembrar as mais hilariantes películas de perseguições policiais.
Não queremos cair no ridículo de menosprezar a evolução dos tempos e protestar contra o progresso a ele inerente, mas também temos o direito de reagir contra aquilo que achamos excessivo e supérfluo por ser desajustado da realidade e se confundir com exibicionismo, parada altaneira ou para nupcial.
O nosso respeito pelos que trabalham nestas missões é, como humanamente se impõe, muito grande e sabemos que é com elevada responsabilidade que se carrega num botão e se accionam as medidas de sinalização dos carros de socorro e transporte de doentes. O problema estará nos menos escrupulosos, nos maus profissionais e nas directrizes destas organizações que são sempre especulativas para criar o furor de uma eficácia de socorro elitista, tantas vezes aquém do desejado.
Não podemos esquecer que estas estruturas que vão desde ambulâncias ao cuidado de organizações como Bombeiros, Policia, etc até SIV´s VMER´s e helicópteros, são “comandadas” por um centro de orientação conhecido pelas siglas CODU. Ora aqui é que reside o descrédito gerado em torno da actuação de algumas acções.
Quando ligamos o 112 logo após a primeira identificação da ocorrência pelo telefonista, se esta for do foro da saúde, ela será conduzida para o tal CODU a quem compete atender, avaliar e registar, no mais curto espaço de tempo, os pedidos de emergência. É este organismo do INEM que acciona o meio de socorro no terreno, que esteja disponível, e que fique mais apropriado à situação em causa, indicando-lhe, sumariamente, a casuística patológica que se pretende socorrer. Mas é também o CODU que indica à tripulação de socorro para onde devem encaminhar os doentes entretanto recolhidos naquela missão.
Parece, portanto, tudo isto muito bem organizado e eficiente. Mas…porque não nos convencemos? Não! Ainda não esquecemos o escândalo nacional que envolveu o referido CODU no caso infeliz de Castedo Alijó, não fosse tratar-se da morte de um cidadão, ter-nos-íamos rido à gargalhada de tanta inépcia. Mas também é com espanto que vemos esse aparatoso socorro em total desproporção com a ocorrência, que às vezes é uma ligeira picada de um prego, ou simplesmente por um pedido de transporte de um doente cuja patologia se manifestou há semanas atrás. Eu sei que há sempre a justificação de dizer que o atendimento tem de ser rápido seja o que for para se estar disponível para uma ocorrência pior. Mas isso nunca justificará o pavoneamento ridículo que às vezes (vezes de mais) assistimos.
Nesta descrição, do que achamos desproporcionado e errado, temos ainda, penosamente que lamentar, que estes meios de socorro conduzam, com o aparato anteriormente descrito, na maioria dos casos, na mais irracional utilização de meios, os doentes para serviços de urgência, a mais de 100 kms, no caso do Alto Minho, quando podiam ser atendidos bem perto, nos ainda SAPs dos centros de saúde , que ainda vão funcionando 24horas
Alguém é peremptório em afirmar que tal orientação se deve à necessidade de reduzir drasticamente o número de atendimentos de urgências nos SAPs para que estes possam ser desactivados sem protestos das populações…ou seja, mais uma repercussão inerente à assinatura dos tais Protocolos que algumas autarquias fizeram com o Ministério da Saúde.
Desculpem a malvadez da minha pergunta: Será que as sirenes nas ruas dão mais votos que o atendimento sereno de proximidade e eficaz dos SAPs?
Outubro 2008
FERNANDO MORENO


