Quando nos preparávamos para ouvir na mensagem do Ano Novo do Presidente da República, mais um discurso de circunstância, morno, asséptico, cheio de truques de retórica palaciana, talvez levemente abalado com uma ligeira ferida na asa, por causa do Estatuto dos Açores, não, ouvimos um discurso destemido, por vezes mesmo violento, sem “papas na língua”de um presidente que parece que finalmente começa a ficar farto da incompetência governamental.
Cavaco fala no seu discurso 5 vezes em crise, as mesmas 5 vezes que diz que é preciso falar verdade aos portugueses. Embora com peias de diplomacia inclui de forma bem perceptível a responsabilidade do actual governo pela crise que atravessamos, e que se agrava, desmontando a cabala da influência internacional na crise interna, e mostra-se preocupado com a incapacidade de Sócrates para resolver o problema durante os próximos tempos. Por isso, diplomaticamente, pede unidade nacional e muito trabalho para se encontrar soluções. É claro que se o governo fosse competente não precisava de fazer este apelo.
Ao repetir 5 vezes a necessidade de falar verdade aos portugueses, Cavaco queria simplesmente dizer que é preciso parar com a política de mentira, chegando mesmo a dizer que “as ilusões pagam-se caras” e mostra-se incomodado com a “venda de bens e das empresas nacionais aos estrangeiros” bem como o crescimento da dívida externa.
É claro que Cavaco já sabe que na melhore das hipóteses, Sócrates tem neste momento uma maioria relativa, agravada com contestação interna liderada por Manuel Alegre.
Para muitos analistas o discurso de Cavaco vem tarde e continua a ser demasiado “delicado” para a diplomacia, mas percebe-se que a crise não é só por culpa exógena pelo que Cavaco responsabiliza o Governo, mostra que tem estado atento aos sinais dos professores, da Função Pública, da falência dos serviços públicos de saúde, justiça e segurança social, ao encerramento de empresas, ao aumento de emigração e do desemprego, etc, etc,
Para aliviar a carga a Sócrates, Cavaco diz que podemos recuar 8 anos no início da crise da economia. È curioso ver quem estava no governo há 8 anos e quem por lá tem passado, mas muito particularmente é necessário que se diga que por golpe de Estado do anterior P.R. foi deposto um governo que tentava sem o sacrifício dos portugueses contrariar a crise iniciada pelo socialista Guterres.
Cavaco falou claro na sua Mensagem de Ano Novo, mas é preciso que venha a falar ainda mais claro e sem rodeios para que a democracia funcione.
FERNANDO MORENO

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