Valença, 2 de Julho
Salão Nobre da Câmara Municipal de Valença
Sr. Presidente da Câmara Municipal de Valença
Sr. Presidente da Assembleia Municipal;
Excelência Reverendíssima Dom José Pedreira;
Sr. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Valença, Sr, Rodrigo Costa;
Sr. Presidente da Câmara Municipal dos A rcos de Valdevez
Srs. Vereadores;
Sr. Cônsul de Espanha em Valença, Dom José Luís Pardiña;
Senhores mesários da Santa Casa da Misericórdia de Valença;
Demais autoridades e individualidades convidadas e presentes;
Minhas senhoras meus senhores
Permitam-me que, antes de mais, sublinhe a honra de estar aqui incumbido de tão importante acto, respondendo ao amável convite da mesa da Santa casa da Misericórdia de Valença, na qualidade de irmão e colaborador desta Instituição há mais de trinta anos.
Sei que, a Obra a apresentar, o Autor e Vossas excelências mereceriam muito mais, não obstante da dedicação e do entusiasmo com que acedi a este convite.
Não querendo ser extenso e trivializar na retórica a notável vastidão de uma Instituição como a Santa Casa, nem reduzir à dimensão de uma mera apresentação pública o superior resultado intelectual da Obra e, em especial do seu mui ilustre Autor, procurarei na medida das minhas modestas possibilidades, embalado pelo impulso que o escritor e a obra me coagem, fazer apenas pequenos sublinhados que me marcam, me impelem e me fascinam, pela grandeza social da sua abrangência e pela capacidade com que o Autor aqui as revela e ostenta, num alinhamento de uma superior lógica, marcado pela experiencia e a capacidade intelectual que Manuel Augusto Pinto Neves dedica, graciosamente, aos seus leitores, á Instituição visada e à Cultura.
Manuel Augusto Pinto Neves, um beirão valenciano, revela-se mais uma vez, o escritor que nos delicia, que nos provoca e nos responde às ansiedades, quando sentimos que o tempo esbate ou varre impiedosamente, sem deixar marcas, as maravilhas que conjugaram na história o resultado cultural que hoje se assume como o presente que somos.
Não fora este ex professor e funcionário bancário, e muitas seriam as relíquias seculares que Valença poderia perder, ou então as sustentaria sem nexo, subjugando-as à mediocridade de um qualquer substrato histórico à espera de um investigador.
É Pinto Neves, com este seu gosto e dimensão intelectual, um dos principais defensores do património imaterial e histórico de Valença, e isso deve deixar-nos a todos muito honrados com a sua dádiva.
Foi no exílio que aquele jovem militar, sofrendo as agruras de uma guerra incompreendida, de uma loucura patética que exaltava a morte e o sofrimento como meio sustentável de achar a paz, que ele, Pinto Neves, encontra na inspiração poética, a transcrição ilustrada do reencontro consigo, com a sua intelectualidade. É na mistura de laivos de raiva, saudade, paz e guerra, numa representação de paradoxos pungentes, que descreve a violência que o conflito imprime na sua personalidade e o move para uma concepção mais ontológica de vida. Nessa primeira obra, NO EXILO, publicada em 1979 nasce, muito provavelmente, o gosto inabalável de escrever livros como forma humana de partilha e a admiração de muitos leitores.
Fascinado pela Cultura, pela história e pela terra que o adoptou, o Autor da Obra que hoje temos o agrado de apresentar, não parou mais, na pesquisa e compilação de acervos documentais históricos. Fez dos seus silêncios momentos preciosos de reflexão à procura de respostas para as mais improváveis conclusões. Fez dos ruídos tempos de despertar para a inquietude das pendências.
Quilómetros de passos para os centros de pesquisa, tantas vezes conseguidos nos mais inverosímeis recantos, horas infindáveis de leituras nos mais imperceptíveis escritos, ou nos mais críticos testemunhos vivos, fazem de Pinto Neves um pesquisador nato, de características próprias dos mais audazes investigadores.
Valença na História e na Lenda, editado 1990; Valença das origens aos nossos dias, 1997; Valença entre a História e o Sonho, 2003; A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Valença, 2004; Portela do Fojo – História e a Memória, 2005; Cristelo Covo – Entre o Castelo e o Rio, 2006; Valença e Tui – Relações através dos tempos, 2008, são já um espólio histórico e literário impressionante que resulta desta insaciável vontade de, Pinto Neves, servir a comunidade servindo a memória da história.
Com humildade, sim com a inabalável humildade que incomoda os perversos, sublinha sempre que as suas mais completas monografias são apenas pequenos subsídios de história e para a história, nunca dando às suas obras literárias uma conclusão mas sim uma abertura para o prosseguimento da caminhada investigadora quer seja da sua ou não autoria.
Mas é também na sua nobre condição humana de ser útil ao próximo, que Manuel Augusto Pinto Neves se entrega, expõe, e luta afincadamente por causas que possam ser de vantagem social, ajudando a melhorar o presente conhecendo o passado.
Tendo o privilégio de privar com Pinto Neves alguns momentos de vida, fico convencido que não fora a sua consciência de entrega ao dever social de utilidade à comunidade alargada e não resistiria às dificuldades com que hoje este tipo de trabalho de investigação o confronta. Por isso também entendo que a obra que hoje se apresenta é, neste momento, o corolário dos objectivos literários do Autor, porque conjuga a história e a Cultura com o humanitarismo, a filantropia e todas as mais abnegadas formas de altruísmo, como o fundamento da existência secular de uma das mais nobres instituições associativas do nosso concelho – A Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Valença.
Beneficia, portanto, esta Obra, da apetência natural do Autor o que lhe concede rigor e grandeza. Mas beneficia também do facto de Pinto Neves já ter sido chamado, pela Irmandade em causa, a colaborar na sua própria Organização.
No princípio, estamos convencidos, foi D. Leonor, impulsionada pela dimensão religiosa, compassiva e humanitária do seu confessor, Frei Miguel Contreiras e mais o apoio do Rei (D. Manuel I) que no ano de 1498 foi fundada a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia em Lisboa, que é na sua essência uma irmandade de Invocação a Nossa Senhora da Misericórdia que visa a promoção, na sociedade de então, dos Valores das 14 Obras de Misericórdia cristãs.
Estava lançado um movimento imparável, com obediência ao regime civil e canónico que revoluciona as necessidades filantrópicas da sociedade de então e se espalha por onde houver portugueses, com os nobres sentimentos cristãos.
Os tempos eram difíceis, abriam-se corredores e movimentos de travessia marítima e as novas rotas do comércio eram cada vez mais geradoras de riqueza e faustosidade, mas também de concupiscência, de ostentação fútil, de bolsas de mendicidade e desgraça social ao que se juntava um crescente número de indigentes, numa sociedade genericamente muito pobre e igualmente crescente de egoísmo e de exploração irracional da condição humana.
Mais de 500 anos depois e as mesmas 14 Obras de Misericórdia a manterem a actualidade de sempre.
Por isso vemos que o mesmo movimento chega aos nossos dias com mais procura de necessitados mas com muito menos beneméritos. É caso para dizer que os tempos mudam mas o Homem teima em não corrigir os seus erros, mas sim, juntar-lhe sempre mais e mais injustiça social.
Wisnton Churchil diz que “Os homens tropeçam por vezes na verdade, mas a maior parte torna a levantar-se e continua depressa o seu caminho, como se nada tivesse acontecido”
É neste contexto, que transcende a dimensão exclusivamente material e métrica do tempo, que Manuel Augusto Pinto Neves investiga a história de uma da mais antigas Irmandades da Santa Casa da Misericórdia do país – A Santa Casa da Misericórdia de Valença, e, com edição dessa instituição, pública hoje o livro A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE VALENÇA – CINCO SÉCULOS A FAZER O BEM.
Trata-se de um Obra com uma curta edição de 500 exemplares, que depressa se esgotará, em que Autor se propõe fazer, uma “ incursão pelos caminhos da Santa Casa da Misericórdia” , dando, nas suas palavras, “ mais um pequeno passo pela história da antiga vila, agora cidade de Valença.”
A Obra distribui-se por 15 longos capítulos, muito ilustrados, com documentos fotográficos que são relíquias históricas que com esta edição voltam a ter sentido e vida.
Como vem sendo habitual, em obras anteriores, o prefácio é assinado, pela sexta vez, para o mesmo autor, por Dom José Augusto Pedreira, o que confere, desde logo, o prestígio e o valor do Autor, mas também a autenticidade e o valor desta Obra literária revelada em mais 600 páginas.
Dom José Pedreira referindo-se à Instituição diz que é “surpreendente o vasto campo de acção social que a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Valença conseguiu, lançar, estruturar e sustentar ao longo dos séculos”. E termina o seu prefácio dizendo “Alguns cidadãos, porém, pelo esforço dispendido, pela perseverança tenaz em atingir os objectivos que se propuseram, marcarão mais profundamente a sociedade dos homens e merecem ser recordados pelas gerações futuras.” Sabemos de quem, Sua Excelência Reverendíssima, estava a falar.
Pinto Neves conclui e prova que a irmandade da misericórdia de Valença data a sua fundação do mesmo ano que a de Lisboa, e rege a sua acção orientando-se pela visão cristã da sociedade, seguindo acções de aproximação às prescrições das 14 Obras de Misericórdia, objectivando as áreas da Acção Social, da saúde, da educação e cultura.
Assume-se com especial vigor na condução de um serviço de saúde hospitalar cuja estrutura poderá ter recebido em incipiente estado de utilidade pública, mas do que não se tem dúvida histórica é que este serviço é fulcral nas acções caritativas da Misericórdia de Valença, constituindo uma resposta não só vocacionada para os pobres, mas também para a sociedade em geral e de apoio ao serviço militar e presídio.
As várias epidemias que grassam ao longo dos tempos como da lepra, obrigam, por imperativo da consciência social, a irmandade a tomar medidas de resposta imediata no seu hospital, criando inclusivamente uma “gafaria”- serviço especializado no internamento e tratamento de leprosos – que era uma estrutura cara e complexa pelo que existiam menos de meia dúzia em todo o território nacional.
Já neste tempo Valença assumia-se na área da saúde como estruturante para a região.
É com as políticas revolucionárias do 25 de Abril de 74 que termina, por decreto do governo, esta nobre missão na área da saúde da Misericórdia de Valença, sendo obrigada a inserir a sua estrutura hospitalar, que detinha com experiencia secular, numa rede nacional de serviços de saúde, geridos num plano assistencial do Estado civil.
Ainda nos lembramos da revolta que tais medidas provocaram na escassa população atenta, por essas medidas poderem vir a subtrair serviços de saúde aos valencianos. Mas, a exemplo de recentes e similares acções do Povo de Valença foram-se cansando de lutar, até que extenuados começaram também a ser acusados de estarem a prejudicar o processo revolucionário e a modernização da sua terra. Como a história se repete! Hoje confirma-se que aqueles que, noutras localidades, levaram mais por diante os seus protestos, conseguiram manter nas suas terras, maternidades, blocos cirúrgicos e outros serviços hospitalares que só a recente emboscada centralizadora de destruição dos serviços clínicos de proximidade, consegui acabar. Infelizmente nunca mais Valença recuperou as respostas de saúde que até aí estavam ao seu alcance, embora num plano técnico duvidoso, mas com todas as possibilidades de se credibilizar e consumar no então Hospital concelhio de Valença. Mais uma vez a nossa localidade foi avaliada pelo poder central autocrata, ditador, e distante da realidade potencial da nossa terra, humilhando os valencianos, comparando-nos com outras localidades com realidades muito aquém das nossas. Qualquer comparação com o presente é mera coincidência…
Uma referencia à botica do hospital da Santa Casa, cujo licenciamento é de sua propriedade e que funcionava com farmacêutico residente e se se substituía à missão social do poder civil, fornecendo de acordo com as possibilidades económicas dos clientes os medicamentos para os tratamentos de tantas enfermidades.
A mendicidade, a debilidade degenerativa dos idosos agravada pela pobreza, merece também uma resposta desta nobre irmandade valenciana. Surgiu, então, o Asilo Cruz, um legado do benemérito António Ferreira da Cruz, classificado de Asilo de Mendicidade, acolhia numa primeira fase, “entrevados pobres”. O Asilo Cruz nasce de raiz e constitui ainda hoje, um ex-líbris importante da acção de misericórdia desta irmandade e o único no concelho com internamento.
Lutando com persistentes dificuldades de financiamento, num combate firme com o poder civil que assiduamente se mostrava ausente desta responsabilidade social, é, durante muitos anos, apenas com os nobres corações beneméritos de ilustres valencianos que a Misericórdia de Valença consegue fazer face aos largos encargos que estas estruturas causam na gestão financeira da instituição. O livro que hoje apresentamos elenca todos os nomes de todas as almas beneméritas a cujos registos o Autor conseguiu acesso.
O Asilo Fonseca um legado testamental de Joaquim Apolinário da Fonseca, é uma das maiores obras físicas de dinamização social levada a efeito no nosso concelho. Conforme exigência do benemérito tinha como objectivo acolher “crianças desvalidas”, dar-lhes quase tudo que o infortúnio da vida lhes retirou e integra-las, depois de atingirem maturidade e auto capacidade, no mundo do trabalho.
A Escola Secundária Municipal é talvez a primeira do país e representa um esforço conjunto, no fim do século XIX, da Santa Casa com a câmara Municipal, mais uma vez evidenciando o protagonismo e a centralidade de Valença na região. É no ensino que a instituição procura, agora, também o combate à precariedade social, num empenho que demonstra que esta Irmandade tinha um sentido de oportunidade e uma visão social muito avança para cada época de intervenção. Conforme transcreve Pinto Neves do jornal “O Valenciano” de então, pode ler-se: “Valença, (…), elevou-se à altura das povoações que melhor sabem compreender e avaliar, que a educação e o ensino são a alavanca do progresso local, (…).”
É no ensino de qualidade colegial e ao melhor estilo da época, principalmente vocacionado para o género com menos acessibilidade – para as meninas – que surge de seguida uma estrutura que posteriormente recebe alunos de todo o país, projectando Valença no conhecimento de muitos e levando, pelos melhores motivos, o nome da nossa terra aos mais recônditos espaços nacionais. Tinha a Misericórdia de Valença implementado mais um projecto sonhado que era o Colégio de Santa Clara ou Colégio Português de Nossa Senhora de Fátima, a que se seguiram outras variantes, a cargo das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. O livro que hoje se apresenta, documenta a luta de sobrevivência e a heróica teimosia que foi necessário para manter viva esta estrutura, nomeadamente com o movimento, de má memória, anti eclesiástico que parasitou apenso à fundação da república.
Já dos nossos dias são, também, outras iniciativas sociais que mantêm interesse na comunidade local, como o apoio domiciliário à terceira idade e ao isolamento social, e a creche e Jardim de Infância que continuam a suportar o foro caritativo, descriminando os encargos de acordo com as possibilidades das famílias de forma a dar as mesmas oportunidades de crescimento pedagogicamente acompanhado a todas as crianças, independentemente da sua condição social ou económica.
As vicissitudes, as estratégias, as nomeações, as demissões, os nomes dos revoltados, dos assíduos, dos beneméritos, as boas e más relações institucionais, os dramas e as vitórias, os murros na mesa e a glória por que passou esta instituição, estão meticulosamente incertos nesta Obra magnificamente apresentada e testemunhada pela inclusão dos documentos que vaticinam os mais imprevistos epílogos. Ao ler as narrativas ficamos de imediato com a imagem dos semblantes serrados, dos protestos nauseados, dos azedumes mas também das manifestações de alegria e dever cumprido que os protagonistas desta história de cinco séculos promoveram e que chegam de forma factual, até nós, através dos documentos classificados e da caneta do Autor da Obra.
Não se pense que com esta apresentação esvaziei o interesse ao conteúdo do livro que anunciamos. Não! O que do livro desvendei é apenas um brevíssimo espécimen do excelente acervo documental classificado e narrado por Manuel Augusto Pino Neves.
Compreender a dimensão social da nossa terra, compreender a história de Valença, passa obrigatoriamente por compreender a história desta nobre Irmandade valenciana, que de forma tão singularizada se encontra espelhada no maior e mais completo documento histórico da Santa Casa de Valença que agora fica aos dispor dos valencianos com o nome A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE VALENÇA – CINCO SÉCULOS A FAZER O BEM.
As Misericórdias e o seu sucesso apoiado no compromisso com as 14 Obras de misericórdia cristãs, são o exemplo provado que a dimensão espiritual do Homem é incompatível com formas fáceis de vida materialista. Pode o Homem experimentar o divórcio com os Valores espirituais, mas esse caminho não o conduzirá à felicidade.
Muto obrigado
Fernando Moreno